O horizonte esconde a Lua, mas astros flamejam-lhe a cara e enchem-lhe o peito de arrepios esperançosos e melódicos. O mar salta ao eixo como que duas crianças a brincar numa caixa de areia lisa e suave como veludo. Dinis rejubila ao sentir as suaves carícias da maresia e deleita-se com uma paz de espírito nunca antes por ele sentida. Tinha sido naquela selvagem e pura praia que a sua alma deambulara durante toda a sua existência. Cresceu, soltou amarguras, viu, sentiu, chorou e vagueou naquele espaço que sentia como seu.
Nascido numa vila próxima da costa, Dinis todos os dias esperava ansiosamente pelo toque da campainha da sua escola. Assim que era chegada a hora de sair, o menino corria desenfreadamente pelo meio da balbúrdia e direccionava os seus olhos para a estrada de terra, estreita e esburacada que se estendia até a Prainha, sitio onde passava todas as suas tardes a olhar para a linha que separava o mar do infinito. Por vezes, quando o Verão fazia as tardes arrastarem-se, Dinis banhava-se demoradamente na salgada e translúcida água do mar. Era aquele o seu sítio. Não conseguia estar em casa sem pensar no quanto desejava voltar a ver o baloiçar das ondas. Às vezes sentia-se só e, quando isso acontecia, desenhava na areia estrelas com as quais imaginava conversar.
A sua mãe tinha morrido no parto e o seu pai desapareceu naquelas águas que Dinis tanto adorava. A família que lhe restava limitava-se a uma tia solteira que o criara desde a sua aparição ao mundo. Dinis era conhecido pela gente da vila como “filho do mar”, pois ninguém tinha a certeza onde é que começava a criança e acabava o mar. A sua infância foi assim passada, entre o oceano e as quatro paredes da escola, que mal o conseguiam segurar.
Perto de fazer os seus dezasseis anos, Dinis descobriu que havia uma coisa que disputava o seu interesse pelo mar. Seu nome era Carolina. Rapariga de cabelos loiros como fios de ouro e olhos azuis que pareciam tão fundos como o mais fundo dos oceanos. Sua graça e sua leveza faziam-lhe lembrar as gaivotas que planavam na costa e havia algo de puro e bom que ela transmitia a quem a rodeava.
Certo dia caminhava pensativamente Dinis para o seu pousio quando reparou num reflexo de cor áurea. De olhos azuis vivos e audazes, esperava Carolina envergando uma túnica de suaves tons lilases e uma rosa branca presa numa trança que parecia moldada pela mais suave ventania. Sentada na areia, construía vagarosamente castelinhos nos quais fantasiava viver um dia.

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