segunda-feira, 31 de março de 2014

Monstro repelente
Castanho e de suas jubas dono.
Bela de olhos aveludados,
Também Bela mas sem sono.

Vistos uma e outra vez
Num sofá velho e roído.
Ah, quantas vezes revistos...
De fim feliz e meio sofrido.

Escafandro imóvel
Baba-se por todo o lado.
Paira à sua volta reluzente
Um bicho psicadélico alado.

O cepo continua sem se mexer,
Borbulha em si um cometa.
Arde todo por dentro
E incendeia a borboleta

India semi-nua
Que faz erguer a masculinidade
De um colono aloirado...
Outro amor sem possibilidade.

Se eu quisesse por acaso
Descrever todos os amores que me passaram pelos olhos
Não dormia hoje nem amanhã
E dos meus dedos restariam folhos

Já vi incriminar um homem
Por deflagrar uma mulher sem intenção de a amar
Ainda não foi sentenciada a pena
E por aí continua ele a vitimar.

Julgo pois, do meu confortável assento
Posicionado de frente para estes crimes
Que o pior deles todos é o meu,
Pois tudo o que sei de amor vi em filmes.

Agente da passiva
É como gosto de me intitular...
De tanto que já vi, se ver é crer
Creio que ainda hei-de amar.

Sem precisar espaço ou tempo,
Universo ou Dimensão.
Hei-de saltar sem olhar para baixo,
Hei-de rasgar o freio que tenho no coração.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sinto-me a estancar, a perder a reacção. O reflexo que me manda tentar ser feliz tem tanta força quanto uma pedra da calçada. Apesar de pisado, aguenta com tudo em cima sem gritar, agitar-se, abrir uma fenda no chão ou no espaço. Nem sequer treme. Heroicamente ainda lá está para me servir de suporte, assim como as pedras da calçada.
É assim a vida, o anoitecer é que nos tem nas unhas, ele é que nos há-de juntar. Se não nos juntar há sempre o dia em que o Sol bate no sentido certo e faz a pedra da calçada estalar e inaugurar um rasgo na superfície terrestre. Aí o reflexo romperá por mim a dentro e a aurora boreal há-de se encandear comigo e contigo e com a nossa luminosidade astronómica.
Há sempre o dia em que o Sol bate no sentido certo.... Se a nossa história ainda não foi escrita no tecto do mundo é por minha culpa e tua, ninguém nos iliba. De qualquer das formas, o Sol bate no sentido certo quando a janelas estão abertas.
            mesmo se não estiverem, HÁ SEMPRE O DIA EM QUE O SOL BATE NO SENTIDO CERTO    (apetecia-me escrever isto mais 5 ou 6 vezes)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A minha cabeça já te escreveu
Tantas cartas de amor,
Tantas declarações de devoção total,
Tantos romances ficticiamente perfeitos....

Sinto-me absurdo quando me lembro
Que nunca te disse nada,
Que me passaste ao lado quando lia,
Relia, flamejava com sangue a tinta que escorria,
E  escrevia.....

Era um livro por acabar
Porque não se consegue acabar,
Por nossa história não ter
Um fim compatível com a efemeridade
Dum rastilho de vida a arder.

Posto isto,
A única coisa que realmente
Me afoga e turva a mente
É o facto de não te ver.
De resto, passas os dias comigo.

sexta-feira, 17 de maio de 2013


Às vezes parte-se-me a cabeça ao meio e jogo-me à doença que tenho em mim. Queria tanto cortar as partes da minha consciência que me dizem que provoco este mal a mim mesmo mas cortá-las não as eliminava por completo. Aliás, é daquelas doenças a que a ciência chama degenerativas e a poesia chama docemente indeléveis.
Dizer que a doença é um estado de espírito com ar condescendente é por vezes demonstrar temeridade de frente a um rochedo pronto para abater-se em cima do referido doente. Dizê-lo é também agressivo para com a integridade emocional da doença em si, elas não gostam de ser rebaixadas a esse ponto. Afinal de contas por vezes as doenças também têm sentimentos. Esta minha não tem sentimentos porque não passa disso, um sentimento.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Na viagem estática
De ontem à noite
Quis apagar-me da realidade,
Já que durante o dia sou cobarde...

A noite sabe quando estou perdido
E quando estou escondido.
Ela sabe sempre,
Porque vive em mim e eu vivo nela.

Nunca me fez sentido
Saber de crianças com medo da noite,
Porque ela criou-me e criou-te,
Minha fantasia de alma dispersa.

O lascivo breu que chega,
Atropelando o ingénuo clarão,
É meu amigo.
Nele não encontro o meu umbigo

No escuro não há um eu
Porque se não nos vemos não existimos,
Afinal de contas a liberdade é uma não-existência
E uma ponte de cordas para a demência...

Mas eu confortei-me nesta noite
Com o braço não-existente que me aconchega.
Enquanto espero a Luz, espero a sorte,
Esperando a morte

domingo, 14 de abril de 2013

Rastejante e latejante, contorço-me quando te vejo a flutuar no meio das caras desfocadas de pessoas à tua volta. Essas pessoas à tua volta não passam disso, pessoas turvas e inócuas . Não sei se sou o único naquele momento a ver-te assim, e isso perturba-me seriamente a sanidade mental. Vejo-te incandescente. Pegas-me fogo e eu deixo-me arder devagarinho, e se um fragmento da minha alma feita em cinzas ficar preso aos teus cabelos, arder valeu a pena.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Já olharam bem para as estrelas hoje? Pois é, não têm nada de especial, estão assim todos os dias. E quando não estão assim, é porque têm o veludozinho húmido das nuvens a escondê-las. Por vezes brilham muito mais do que hoje, resplandecem que nem faróis cravados no tecto do mundo. Adoro ter nas estrelas uma companhia no escuro da solidão, são persistentes e quase nunca fogem. Às vezes quem foge somos nós que, afocinhados no chão de terra sonolenta, na Terra que circula lenta, perdemos o hábito de olhar para cima, e o essencial de olhar para cima é perceber a nossa gigantesca pequenez. Perder-mo-nos no nosso umbigo, contornando-o como a uma rotunda, infinitamente, acontece demasiado. Mas se pelo menos uma vez por outra tivermos a audácia de olhar o céu e sentirmo-nos pequenos, é possível que não sejamos engolidos pelo redemoinho de egocentrismo que temos no centro da barriga.