As razões para o que faço estão
marcadas em risquinhos que me enfeitam a alma, aos quais chamam cicatrizes.
Também não sei como é que abriram nem como fecharam, por isso não vale a pena
perguntares-te porquê. Se calhar muitas delas nunca chegaram a abrir; está tudo
na minha cabeça, explica-lo exigiria muitas horas queimadas, muito cigarro
digestivo e todo um reboliço que nem a um poste de luz interessa.
Imagine-se que toda a gente tinha
uma tal cicatriz na língua.
“tão man, como é que fizeste
isso?”, perguntaria eu a cada pessoa que passasse por mim. “pá, lambi uma faca”
e eu perguntava logo “epa mas tu és estupido ou que???doeu muito???” “ya, as
dores foram horríveis, mas a parte boa, quando é boa, é meeeeeeesmo mesmo boa”
E pronto, lá lambi a faca e, sem
chegar à parte boa esvaí-me em sangue e juízo, tudo directamente para a massa
pastosa do esgoto. Fiquei um bocado danificado, visto que morri. Mas ao menos
ao morrer senti aquela dorzinha que as pessoas diziam que sentiam quando
lambiam a laminazinha cinzenta, o gume atraentemente fatal e cortador de
línguas curiosas. Depois quando acordei da minha falência e turvação de
sentidos percebi que afinal de contas só queria mesmo é que me doesse como doía
aos outros, queria penar para saber qual é o gosto do meu próprio sangue;
afinal de contas toda a gente já sabia como é que doía, e eu ia ficando à
espera que alguém chegasse ao pé de mim e me dissesse: “anda lá, trouxe-te uma
faca, cortemo-nos ao mesmo tempo, bebamos os dois do mesmo vinho que tanto de
sabor a mel tem como de ferrugem, e que nos vai embriagar num baile tão
intenso quanto a própria vida” E depois de cansada de bailar, com alguma sorte,
eu ficava a ver-te dormir
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