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Engolir. Engolir em seco, engolir quando se quer dizer alguma coisa mas a voz não sai. Engolir quando se é humilhado ou magoado. Engolir quando o mundo cai em cima da nuca. Engolir quando se tenta estalar os ouvidos, engolir uma colherada da sopa que se detesta, engolir uma mão cheia de pioneses, engolir um litro de bagaço, engolir um pirolito de água salgada. Engolir, é um verbo tão subentendido que ele próprio tem vergonha de se mostrar na voz da gente. Hoje apetece-me seriamente engolir o mundo. Engolir cada centímetro de superfície terrestre. O mundo é o grande medo para gente pequena, mas eu já não me sinto pequeno e acho que o mundo tem que entrar em mim. Como? Sentindo com a ponta dos dedos a suavidade de um pescoço que se afaga no meu ombro, cortando a amarra desta vida corriqueira, encarando o Sol e a Lua e o que quer que esteja sobre nós. Há que abandonar os lençóis que nos aconchegam à restrição da nossa vida, ver por mais além. Contemplando esta restrição, deixand...
Arranhadora suave do silêncio da minha cabeça, a tua voz salta-me em cima da pele e cria-me tremores. Já não funciono mais, é como uma cãimbra que vem do centro do peito, como se o ar me fugisse da respiração, como se me trespassassem com uma pena os nós da espinha. Passam-me por trás dos olhos reflexos de sensacional êxtase. Antevejo sabor a primavera, uma trança que descansa em cima do meu peito e olhos que transcendem o escuro breu, tornando-o aurora resplandecente. Antevejo-te. É logo depois de revirar os olhos que me cai o mundo em cima, e o que antevejo não vejo ser. Não vejo acontecer o que parecia tão possível e tão formidável. É só um delírio, apenas mais um. Vendo bem, parecia tão formidável que duvido merecer algo assim
Quando é que se libertam Os presos da consciência, Os pregos na inteligência, Os peçonhentos bichos Que me roem por dentro? Sou roído gradualmente Parece que planearam, Uniram-se e atacaram, Cresceram devagar e fluíram Pelo meu sangue e mente.
Entro na sala do café E o fumo espiralado lambe-me a solidão, Ela desaparece e perguntam por mim, Querem saber de mim! Respondo sempre bem E que está sempre tudo bem, Que o dinheiro vai e vem E que tenho saúde de ferro. De quando em vez dizem Que tenho ar apático e aéreo, Até me perguntam “o que se passa?” Só me ocorre que o tempo não passa. Só não me vejo correr Atrás do que me sinto querer, Só o que não quero é que galopa para mim Só estou só, e não vejo o fim.
Somos felizes por reacção Química, explosiva e nuclear, Atómica, voraz e lunar. Em jeito de resumo, por um erro. Se sou feliz é porque me engano, Me enganei ou me enganaram. Foi um equivoco que os espelhos nos criaram, Porque o erro é o núcleo da felicidade. Se vais a correr tropeça, Hás-de te afogar até aprenderes a nadar Grita até te doer a falta de ar, As estrelas estão desalinhadas por alguma razão E por mero acaso Quando o nevoeiro se deita Não passa a vida que é perfeita, Não passa o erro, cobarde e ferido.
Ter como mapa Imagens rudes e rascunhos Torna difícil o caminho, Adiar é sempre mais fácil.           (e por adiar definho) Respirar é assustador Quando o ar é perfume De mofo e papel a arder, Estufa-se o sentir e a consciência.         (e no espelho vejo-me a tremer) Cruzo-me com sombras e reflexos E não me reconheço em nenhum Porque nada reflecte a explosão, Cada pensamento é dinamite.         (e morro novo de indecisão)
As razões para o que faço estão marcadas em risquinhos que me enfeitam a alma, aos quais chamam cicatrizes. Também não sei como é que abriram nem como fecharam, por isso não vale a pena perguntares-te porquê. Se calhar muitas delas nunca chegaram a abrir; está tudo na minha cabeça, explica-lo exigiria muitas horas queimadas, muito cigarro digestivo e todo um reboliço que nem a um poste de luz interessa. Imagine-se que toda a gente tinha uma tal cicatriz na língua. “tão man, como é que fizeste isso?”, perguntaria eu a cada pessoa que passasse por mim. “pá, lambi uma faca” e eu perguntava logo “epa mas tu és estupido ou que???doeu muito???” “ya, as dores foram horríveis, mas a parte boa, quando é boa, é meeeeeeesmo mesmo boa” E pronto, lá lambi a faca e, sem chegar à parte boa esvaí-me em sangue e juízo, tudo directamente para a massa pastosa do esgoto. Fiquei um bocado danificado, visto que morri. Mas ao menos ao morrer senti aquela dorzinha que as pessoas diziam que sentiam qua...