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MMTC

  Mar fulgurante, não se vê Aonde tocas o céu, és intransigente. Rindo, remo em ti, e rapidamente, Inebriado, Adormeço a chorar um fado.   Mar ilusório e celestial, A bom porto não me levas, eu sei, Rastejo para terras sem lei. Gritar não me vale de muito, Alheou-se-me o fortuito Rareia-se-me o ar. Isto de ser velejador, De velejar pr’álem do torpor… Ao menos no mar-alto posso cantar.   Trinta mil vezes A sonhar já te atravessei. Para mal da minha alma Acordei. De olhar em volta, iludido As lagrimas caiam-me dos olhos, Sem nunca te ter, tinha-te perdido.   Chorar sei que de nada me há-de valer Ainda que me limpe a alma de dor. Rosto ensopado por amor, Dentro tem a alma a arder. O tempo já não o vejo a correr, Se velejar for sempre assim O mar vai-se afogar em mim
sacrifico a minha alma aos deuses da apatía Eles cospem-na de volta e contemplam-me: Sabem que eu não lhes devo nada. -Tu não estás apático Dizem-me em palavras calmas com o zumbir estático, firme e calmo do Universo Eu pensava que esta minha letargia se apelidava apatía, sentia-me no direito de a partilhar com as entidades que são o Todo e o não-Todo. Mas descobri, por vía desta negação dos que Tudo-Nada são, que o poder de apatizar a alma não pertence ao domínio humano. A apatía rejeita o sentir e eu, enquanto alminha espantada, petulante e propulsionadora de movimento, deslizo em cristas de espuma salgada cristalina de sentimento, ondas do meu fulgor ridiculamente dramático. Logo, como Eles me disseram, não estou apático. Apático está o carvalho centenário que come das mesmas raízes o mesmo chão que comeu há incontáveis gerações de pessoazinhas atrás. Assim como o Siddartha incólume que, silente, proclama o ohmmm, eterno criador e destruidor de tudo o que conhecemos e é...
Esta morte do ser que é ter medo de ser, de não ser, ser demais ou a menos. Este definhar da alma que não agita nem morre, não adiciona nem dissolve. Este correr sem estrada, descalço sem chão para pisar ou preso sem trela para desafogar. Abrasam-me chamas neutras da cor da cal e sinto mármore no tórax, tão pouco rosa quanto a minha indolência. Nem o fumo que faço é denso, apesar dos meus pulmões chiarem como um comboio a vapor. O meu coração palpita por pena do resto dos órgãos e as terminações nervosas do meu cérebro jogam ao peixinho sentadas em cadeiras frágeis do caruncho. A bicheza apodera-se de mim. A bicheza sou eu. Olho para a televisão desligada e vejo um filme de memórias imaginadas. E que romântico... As minhas memórias são putas solitárias e prostituem-se baratinhas. Dão tudo o que têm num acto de amor lânguido e fogosamente abnegado em troca de cinco paus de atenção e meio cafuné.
Monstro repelente Castanho e de suas jubas dono. Bela de olhos aveludados, Também Bela mas sem sono. Vistos uma e outra vez Num sofá velho e roído. Ah, quantas vezes revistos... De fim feliz e meio sofrido. Escafandro imóvel Baba-se por todo o lado. Paira à sua volta reluzente Um bicho psicadélico alado. O cepo continua sem se mexer, Borbulha em si um cometa. Arde todo por dentro E incendeia a borboleta India semi-nua Que faz erguer a masculinidade De um colono aloirado... Outro amor sem possibilidade. Se eu quisesse por acaso Descrever todos os amores que me passaram pelos olhos Não dormia hoje nem amanhã E dos meus dedos restariam folhos Já vi incriminar um homem Por deflagrar uma mulher sem intenção de a amar Ainda não foi sentenciada a pena E por aí continua ele a vitimar. Julgo pois, do meu confortável assento Posicionado de frente para estes crimes Que o pior deles todos é o meu, Pois tudo o que sei de a...
Sinto-me a estancar, a perder a reacção. O reflexo que me manda tentar ser feliz tem tanta força quanto uma pedra da calçada. Apesar de pisado, aguenta com tudo em cima sem gritar, agitar-se, abrir uma fenda no chão ou no espaço. Nem sequer treme. Heroicamente ainda lá está para me servir de suporte, assim como as pedras da calçada. É assim a vida, o anoitecer é que nos tem nas unhas, ele é que nos há-de juntar. Se não nos juntar há sempre o dia em que o Sol bate no sentido certo e faz a pedra da calçada estalar e inaugurar um rasgo na superfície terrestre. Aí o reflexo romperá por mim a dentro e a aurora boreal há-de se encandear comigo e contigo e com a nossa luminosidade astronómica. Há sempre o dia em que o Sol bate no sentido certo.... Se a nossa história ainda não foi escrita no tecto do mundo é por minha culpa e tua, ninguém nos iliba. De qualquer das formas, o Sol bate no sentido certo quando a janelas estão abertas.             mesmo se não esti...
A minha cabeça já te escreveu Tantas cartas de amor, Tantas declarações de devoção total, Tantos romances ficticiamente perfeitos.... Sinto-me absurdo quando me lembro Que nunca te disse nada, Que me passaste ao lado quando lia, Relia, flamejava com sangue a tinta que escorria, E  escrevia..... Era um livro por acabar Porque não se consegue acabar, Por nossa história não ter Um fim compatível com a efemeridade Dum rastilho de vida a arder. Posto isto, A única coisa que realmente Me afoga e turva a mente É o facto de não te ver. De resto, passas os dias comigo.
Às vezes parte-se-me a cabeça ao meio e jogo-me à doença que tenho em mim. Queria tanto cortar as partes da minha consciência que me dizem que provoco este mal a mim mesmo mas cortá-las não as eliminava por completo. Aliás, é daquelas doenças a que a ciência chama degenerativas e a poesia chama docemente indeléveis. Dizer que a doença é um estado de espírito com ar condescendente é por vezes demonstrar temeridade de frente a um rochedo pronto para abater-se em cima do referido doente. Dizê-lo é também agressivo para com a integridade emocional da doença em si, elas não gostam de ser rebaixadas a esse ponto. Afinal de contas por vezes as doenças também têm sentimentos. Esta minha não tem sentimentos porque não passa disso, um sentimento.