Mensagens

Zarpar Perder de vista a cela Não reter o pensamento Renegar. Zarpava Tirava os meus sonhos da tela Sem hesitar um momento Renegava. Zarparia Se conseguisse apagar a vela Que apaga-la não consegue o vento Renegaria. Zarparei Assim que aprender a fala Dos que tendo tecto dormem ao relento Renegarei. Zarpo Choro por esta terra, não vou mais pisá-la Não me contenho, também não tento Renego. Zarpei O meu espírito entrou na caravela Que me há-de levar à esperança e ao tormento Reneguei.
Sórdida, mas sempre altiva Marca-me com ferro em brasa. Corta-se ás fatias Quando lhe apetece. Queria marcá-la também Para ver se está viva. Gostava de apagar uma beata Naquele corpo pálido. Nunca chego lá Nem que salte até mais não. Fico à espera, na treva E vejo-a partir vestida de prata. Exilaram-na lá no alto Para mandar calar os grilos. Acabaram enfeitiçados Os pobres bichos. Agora não param de cantar, tresloucados Ao céu cor-de-asfalto. Não pensas no que estás a fazer Quando apareces, incandescente. Tiras o encanto a Vénus E roubas o escuro à noite. Sou um grilo sem voz, Só me deito ao amanhecer
Arde ardiloso Em languidas labaredas, Fugazmente fogoso, O tronco trépido Num transe trémulo. Puxando pungentemente Grito eu, grotesco, Ao Sol que me queima, À chuva que me apaga E ao sal que se esfrega nas minhas feridas Ao fim de puxar, polido e brilhante, Engulo tudo de uma vez: O Sol A chuva E o sal. Engulo peixes sem cuspir espinhas, Sinto-os a nadar cá dentro. Estou inchado, enorme Já nenhum mundo cabe em mim. Estou sem Fado, disforme Já acabei, mas não cheguei ao fim.
o chuvisco, arisco, não serve de isco a um pisco que passa a vida sem correr um risco. e o Sol corre à caracol de casca mole, e rende carcanhol a uma mulherzinha perdida c'o vende ao pé do farol sadia, vende maresia. apregoa o Sol de cada dia , que dá calor e alumia "olha a geada, ainda agora caída" grita, viva, a velha maria
Que estranho luar, Que palavras fora-da-lei, Que espírito conturbado! Que estranho luar Vemos hoje, meus amigos! As estrelas ofuscadas pela Lua Procuram desesperadamente abrigos… Não apaguem essa luz de apocalipse, Que a loucura de amantes está a cegar! Que palavras fora-da-lei Fugiram hoje, meus amigos! Correm agora pela rua Roubando sorrisos a mendigos… Deixem-nas abalar alegremente, Que um dia ainda as filarei! Que espírito conturbado Suspira hoje, meus amigos! Porquê essa ânsia tua Que de portas arrancas postigos… Mas não lhe larguem os cães, Pois que é só um poeta desconsolado!
Os pássaros que vivem calados E que não animam prados, Respiram a mesma dor que eu. E já por menos se morreu… Não quero penar. Mas não é isto que me faz parar, Antes me faz continuar A girar em torno da Lua Que um dia vai ser minha e tua, Eu conseguirei Ver. Se assim penso é por não me conter, A realidade parece transparecer E nítida, sem qualquer escuridão, Estás tu na tua imensidão Interestelar .
A barreira do tempo faz-me sangrar dos ouvidos e a falta de luz queima-me os sentidos com um fugaz e ofuscante brilho de pedra nua. Não faço ideia do que acontece, o vento já me levou a nitidez e os olhos imaginários que se fixavam em mim roubaram-me a lucidez dos momentos que podiam ter acontecido. Cada dia que passa é um passo para o infinito e os relâmpagos que tentam dar faísca à minha vida falham, a chama não pega porque a chuva não para de cair.